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História


Araçatuba, domingo, 23 de setembro de 2001


Editorial


A truculência do MST

O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) sempre é rotulado de radical, intransigente e até de abrigar entre seus quadros pessoas violentas.
Sabe-se que é difícil a direção do movimento controlar as ações de seus militantes, como aconteceu recentemente em Birigüi, quando um jornalista desta Folha foi agredido por um militante em fúria, na delegacia de polícia daquele município.
Antes da agressão, o militante do MST havia sido detido porque resistira ao cumprimento de ordem judicial de desocupação de prédio da antiga Anderson Clayton, hoje pertencente ao Banco do Brasil.
Não soube compreender aquele representante do MST que o profissional cumpria sua função precípua de registrar os fatos e informar o leitor, além de perpetuá-los na história, o que é o papel da imprensa.
Se, por um lado, os dirigentes do MST não podem ser responsabilizados diretamente pela agressão, por outro, a agressividade de seus militantes é uma constante, e, portanto, chega-se à conclusão de que ela é criada pelo MST, deixando os militantes propensos a ataques como os acontecidos em Birigüi.
O MST tem o direito de existir, como qualquer outra ONG. A sociedade democrática não pode discriminar movimentos, principalmente os que têm como bandeira a democratização da posse da terra, mas eles precisam ter explícita a preocupação com a auto-imagem, criada no seio da sociedade, pois seus militantes "vendem" uma idéia, e o bom "vendedor" precisa ser simpático à sua clientela.
Por fatos como esses, a bandeira do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra não avança no Brasil. O reivindicante, às vezes, faz questão de ser antipático às massas urbanas, que deviam ser conquistadas, pois sem o apoio delas a reforma agrária não se tornará realidade no Brasil.
Não houve violência maior de ambas as partes, na desocupação, a não ser a resistência de Ricardo Ambrózio da Silva a cumprir a determinação judicial, havendo a destemperança injustificada, com o fotógrafo desta Folha. Um infantilismo, pois qualquer movimento precisa lutar para ter a mídia a seu lado. Basta ver o esforço dos governos após os atentados nos EUA para esclarecer a opinião pública e influenciar as massas com as suas posições e ao mesmo tempo utilizar a imprensa para captar os sentimentos nacionais e tomar decisões. Não é apenas antidemocrático brigar com a imprensa. É falta de sensibilidade e inteligência estratégica.
A reforma agrária só sairá no Brasil quando houver um consenso nacional. Ela não será implantada por um partido político apenas, nem mesmo por uma facção, ainda mais se partir para o radicalismo.
Nesse momento, se faz necessário pensar nas palavras de John Kennedy: "Aqueles que fazem a reforma pacífica impossível, tornam a mudança violenta inevitável".
Por tudo isso, o MST precisa repensar a sua prática, pois pela violência nada se constrói, a não ser atos terroristas e guerras. É não é isso o que deseja a sociedade.

O despreparo de Bush

O comportamento do presidente George W. Bush, após o ato de terrorismo praticado contra o Pentágono e o World Trade Center, no dia 11 de setembro, não traz consigo a envergadura de um estadista nem a responsabilidade de uma nação que tem um papel importante no mundo, como os Estados Unidos.
O bate-boca via imprensa entre Bush e o Taleban, sobre a entrega ou não de Osama Bin Laden, com provas ou sem provas, ou "se eles abrigam terroristas, a mensagem do presidente é clara: vamos derrotá-los", está mais para o nível de uma briga municipal do que para um problema de ordem mundial, que envolve a paz no planeta Terra.
Analistas pró-americanos dizem que tais atitudes de Bush fazem parte de uma estratégia de intimidação, de demonstração de poderio ao mundo. Se isso for verdade, tal comportamento já custou muitas vidas, como aconteceu em Hiroshima e Nagasaki, com explosões de bombas atômicas.
Na verdade, o presidente não sabe para quem apontar o poderoso armamento de um país que demonstrou vulnerabilidade no seu próprio sistema de segurança. Parece que o desespero de Bush vem da própria forma como foi guindado à presidência, precisando sempre mostrar à opinião pública que é um homem à altura do cargo.
Se Bush fosse realmente um estadista, costuraria uma aliança ampla, mobilizando antigos aliados, isolando o islamismo xiita, que pratica o terror. Isso se faz com inteligência, sangue frio e paciência, como se joga xadrez, sem bravatas.
Como brasileiros, na periferia dos acontecimentos, nos cabe receber as conseqüências econômicas das trapalhadas de um presidente despreparado.